Mário de Andrade

Abril 15, 2009 por celsoduarte

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Momento

Ninguém ignora a inquietação do clima paulistano…

Pois tivemos hoje uma arraiada fresca de neblina.

 

Depois do calorão duma noite maldita, sem sono,

Uma neblina leviana desprendeu das nuvens lisas

E pousou um momentinho sôbre o corpo da cidade.

Ôh como era boa, e o carinho que teve pousando!

Não espantou, não bateu asa, não fez nenhuma bulha,

Veio, que nem beijo de minha mãi si estou enfezado

Vem mansinho, sem medo de mim, e poisa na  minha testa.

Assim neblina fez, e o sopro dela acalmou as penas

Desta cidade histórica, desta cidade completa,

Cheia de passado e presente, berço nobre onde nasci.

Os beijos de  minha mãi são tal-e-qual a neblina madruga…

Meu pensamento é tal-e-qual São Paulo, é histórico e completo

É presente e passado e dele nasce meu ser verdadeiro…

Vem, neblina, vem! Beija-me, sossega-me o meu pensamento!

 

Mário de Andrade (1893-19450)

Do livro Poesias Completas.

Livraria Martins Editora S.A.

Outros blogs

Março 27, 2009 por celsoduarte

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O ato de blogar tem que ser no mínimo divertido. Ninguém deve pensar em seriedade nesta espécie de brincadeira ou descontração. Já disse isso uma vez – deixem a seriedade e o compromisso diário nas mãos dos profissionais de jornalismo e de mídia. Eles estão desempenhando uma função profissional, enquanto nós blogueiros estamos lendo e escrevendo por mero acaso. Exercemos uma atividade lúdica e também expressamos nossas idéias e pensamentos, sejam eles brilhantes, desinteressantes, ou não.
Quando não sei o que escrever…invento. Quando não recebo nenhum comentário… aprendi a achar normal, mas assim mesmo verifico os números do contador de visitas. Meu único receio é o de ser apenas o único visitante. Porém, se isso ocorrer, não é motivo para desânimo, pois neste caso, o blog está cumprindo seu honrado papel de ser uma espécie de diário não compartilhado.

Já vi muitos blogs coloridos com flores, gifs animados e tantos outros adornos, verdadeiros painéis luminosos, repletos de frases e poemas de amor. Já vi também muita sacanagem. Casais, homens e mulheres solitários oferecendo seus préstimos amorosos ou sexuais. Mulher pelada? Muitas, em todas as poses, cores e raças. Já vi blogs em que o autor escreve uma única frase e nunca mais aparece. Porém, todos podem ser considerados  importantes, pois em algum momento na vida destes autores representaram a expressão de sua individualidade. Às vezes penso que existirão tantos blogs publicados na NET, mas tantos que não existirão mais leitores para eles. Bem, aí a missão estará cumprida e então poderei dormir em paz e mais cedo.

Quero minhas figurinhas de volta

Março 12, 2009 por celsoduarte

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Já demonstrei em muitos textos publicados neste blog, o quanto eu gosto da música popular brasileira e a americana também. Foram muitas referências acumuladas durante os meus 50 anos. O tempo passou e fui guardando comigo partituras de piano, herança de meu pai e as letras cifradas de violão, muito raras e difíceis de serem encontradas na minha juventude nos anos 70. Uma coleção de LPs que aumentou por ocasião do meu casamento quando juntamos nossas coleções. Os livros não encontram mais lugar nas estantes. Até hoje a biblioteca pública da minha cidade agradece pelas nossas doações de livros e revistas.

Com o advento do vídeo, dos CDs e DVDS, os filmes viraram uma nova mania. Chegou a internet e os computadores ganharam espaço nas casas. Nosso universo ficou bem maior e o cinema  continua presente em nosso cotidiano em outras formas de mídia. O computador doméstico hoje é um grande facilitador ao acesso e ao processo criativo musical em todas as suas formas e estilos.
Nossos filhos continuam e aprimorando nossos gostos pela arte. Eles descobrem novos caminhos e nos informam sobre os novos acontecimentos. Assim compartilhamos com as novas gerações e descobrimos a nova música e seus novos ídolos.

Lembro ainda, quando menino,na minha pequena cidade do interior e comecei a colecionar figurinhas. Meu quarto era forrado de gibís da Editora EBAL e da Rio Gráfica Editora – lembram ou já ouviram falar sobre elas, que dominavam o mercado gráfico na época. Aguardava a chegada dos domingos para ler os suplementos dos quadrinhos da Folha de São Paulo. As matinês nos domingos no Cine Politeama (Capivari – SP ) eram ótimas para trocar e vender os gibís. Um mundo mágico.

Essas lembranças não só nos remetem a um passado distante, como nos acalmam e tranqüilizam com uma boa dose de lirismo. Gosto de lembrar do menino que fui, trocando figurinhas e jogadores e artistas e colando-as nos álbuns nem sempre completados, pois algumas delas eram difíceis ou impossíveis de ser encontradas. Andar a pé ou de bicicleta. Nadar nos riachos. Jogar bola em qualquer terreno baldio e nos quintais.
São recordações, mas mesmo assim ainda prefiro o interior à capital para viver. Ainda hoje prefiro morar aqui (Piracicaba – SP ) e passar alguns dias em São Paulo, somente o necessário para respirar os bons ares que ainda restam na metrópole e apreciar o caos por alguns momentos e logo fugir daquele lugar. Acho que as pessoas merecem viver com mais dignidade e que uma metrópole desordenada com quase 20 milhões de habitantes não pode garantir conforto e dignidade a todos. Sem rimas, agradeço pelo fato da felicidade um dia já ter batido à minha porta e ter me deixado viver a a minha infância e juventude nos anos 60 e 70, longe da violência urbana que hoje nos assola. Ainda bem que eu atendi e deixei a música e a poesia entrar.


O piano

Fevereiro 6, 2009 por celsoduarte

Hábito das antigas famílias paulistanas, o piano na sala de estar conferia bom gosto ao mobiliário e um certo ar de aristocracia. Fora isso, o piano era um sonho. Ele chegou antes do rádio e da TV tomarem conta dos lares brasileiros como centro de atenções.
Os encontros familiares, os saraus, onde a música e arte de tocar um instrumento eram valorizadas ao extremo e os antigos músicos ocupavam um lugar de destaque na sociedade.
Do erudito ao popular, sempre um gosto refinado, as modinhas, choros e valsas ecoam até hoje em nossos ouvidos.
O tempo passa e a moda muda. Dos primeiros rocks nacionais, da bossa nova aos festivais e ao advento do tropicalismo.
Vi o tempo passar e vi também meus ídolos morrendo um a um. É a vida e ela continua, assim como as músicas que transcendem e permanecem no ideário popular.
Voltando ao tempo, lembro que estes antigos encontros, vamos chamá-los de saraus, eram disputados e não cabiam nas casas particulares.
As varandas e janelas abertas para as ruas atraiam pessoas que passavam e se aglomeravam nas calçadas para ver e ouvir.

Os pianos ficavam nas salas e as casas eram construídas no alinhamento das ruas, geralmente com as janelas abertas ao convívio dos amigos. Não havia grandes preocupações com roubos ou indiscrições das pessoas. Havia algo chamado respeito. Respeito humano de uma sociedade que cultivava valores morais e éticos. Não sei se estou ficando velho, aliás isso é a única coisa que sei e tenho certeza, não quero ser apenas um saudosista, mas sinto falta de tudo aquilo. Não da rigidez moral, do autoritarismo, mas sim dos valores humanistas dos anos dourados vividos no século passado.

Lembro do antigo piano na sala de estar da minha casa, na pequena Capivari, interior de São Paulo, comprado pelos meus pais com a economia e o sacrifício de alguns anos e a felicidade quando eu meus irmãos vimos um lindo piano Brasil com móvel de imbuia e mecânica alemã importada sendo descarregado em nossa casa.

piano_celso2

Meu pai, sem dúvida um dos melhores  pianistas da região, percorria o erudito e popular e cultivava um repertório recheado de sambas e choros  e o melhor da música do cinema  americano, logo reuniu a vizinhança numa festa que se prolongou até altas horas da noite.
Neste mesmo piano, com o passar dos anos, ouvi minha avó, minhas tias, meu irmão e amigos tocando um repertório interminável e nele também dedilhei meus primeiros solos com as melodias de Jobim do seu primeiro disco internacional, aquele de capa branca da gravadora Elenco.
Na época eu não entendia muito bem, mas por ser um hábito muito refinado, o piano era objeto de preconceito machista.
Alguns músicos, por este motivo preferiam o acordeom ao piano. O violão sofria também o preconceito das famílias. Era o instrumento dos boêmios, dos marginais. Engraçado que nunca tive nenhuma destas barreiras, mas escolhi o violão como meu favorito.

Dans mon ile

Dezembro 20, 2008 por celsoduarte

Henri Salvador

Na minha ilha
Ah!Como a gente fica bem
Na minha ilha
A gente não faz nada
A gente se doura no sol que nos acaricia
E a gente preguiça
Sem pensar no amanhã
Na minha ilha
Ah!Como é doce!
Bem tranquila
Perto da minha querida
Embaixo do grande coqueiro quese balança
Em silêncio
Nós sonhamos
Na minha ilha
Um perfume de amor
Se dispersa
Desde do fim do dia
Ela corre em minha direção estendendo seus braços doces
Doce e frágil
Em seus belos contornos
Seus olhos brilhantes
E seus cabelos castanhos
Se espelham
Sobre a areia fina
E nós jogamos o jogo de Adão e Eva
Jogo fácil
Que eles nos ensinaram
Por que nossa ilha
É o paraíso

Composição: M. Pon e H. Salvador

 

 

O olhar do poeta enquanto as luzes se apagam

Julho 24, 2008 por celsoduarte

O olhar do poeta enquanto as luzes se apagam

Tenho inveja,
no bom sentido da palavra,
dos casais apaixonados se beijando
num clima romântico
da chuva, da noite que começa, das luzes que se acendem nos parques.

Na verdade, tenho saudades
Dos bons tempos, dos amores ingênuos
da inconseqüência dos atos.

O tempo passa para todos
cada novo momento poderá ser o momento de nossas vidas
por isso penso em não perder mais tempo
penso em poder sair por aí atrás de aventuras.

Mas quando vejo as faces de minhas amigas
Com boa parte de seus desejos realizados
e com muitas das tarefas da vida já cumpridas
penso que elas estão felizes
apesar dos olhares esquivos
dos sentimentos nunca revelados.

Não vou sair mais atrás de aventuras
apenas vou continuar lembrando das minhas
assim vou me sentir seguro 
para viver e continuar sonhando.

Celso Duarte, 27.08.2007

A musa

Junho 25, 2008 por celsoduarte

 A musa

 

Antes de ver o filme

Eu já havia inventado uma musa

Ela tinha até um nome

Mas não vou dizer

Ela era morena

Tinha os cabelos de Iracema

E o sorriso envolvente de uma índia

Os seios

Duas conchas ao vento

As pernas douradas pelas ondas

A tez banhada de sol e calor

Minha musa

Bem antes de assistir ao filme

Quando as coisas não iam tão bem pra mim

Quando eu não compunha nem mais uma música

Tentei inventar uma musa

Ela já não tinha nome

Não me recordo sua idade

Sua cor

Só me lembro dos olhos

Verdes quando mar, negros quando noite

Pude então criar novos versos

Mas o poema que fiz pra ela

Não vou contar

Não vou cantar

Se alguém perguntar

Só vou dizer

Esqueci ou ainda não terminei

 

por Celso Duarte

Poeta Bissexto

Junho 4, 2008 por celsoduarte

 

Poeta bissexto

Nem isso sou

Não me canso de querer

Ser

Poeta

Mas não sou

Poeta?

Esse ofício não exerço

Há muito tempo

Poeta, mas bissexto

Finjo que sou

Vez em quando apareço

Com um poema de amor

Que me comove

Poeta bissexto?

Sigo um bom exemplo

Joaquim Cardozo me ensinou

Entre a poesia

E o concreto

É preciso amar a vida

Poeta

Mesmo bissexto

Não me canso de querer ser

O que já sou

Apenas não consigo ser

Aquilo que um dia quis ser

E que hoje, reconheço

Não sou.

 

Celso Duarte


Paal Bentdal Photography

A exemplo dos meus amigos poetas Climério Ferreira e Jotabe Campanholi, eu também gostaria de revelar um pouco do meu lado poético. Acho que a poesia se revela também nas artes gráficas, na estética de um site na web ou mesmo num blog. Em todas as manifestações artísticas a busca do belo, da poesia se manifesta como em nossos atos mais simples e despretensiosos.
Como deixei de escrever a um bom tempo, penso agora em me apresentar como poeta bissexto. Mas, entendo que nem isso é sou, pois a minha periodicidade criativa nem sequer se manifesta desta forma. Senão, vamos lá.

- De “poetas bissextos” é que eu, confesso, nunca tinha ouvido falar. Mas que os há, há. No Brasil, estão até coligidos. Com data de 1946, deu-se à estampa uma “Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos”, na qual Manuel Bandeira explica o qualificativo: “Não procurem a expressão [poetas bissextos] nos dicionários, porque não a encontram. Pelo dicionário, bissexto só há ano, e é o que tem um dia a mais, o que ocorre de quatro em quatro anos. Poeta bissexto deve, pois, chamar-se aquele em cuja vida o poema acontece como o dia 29 de Fevereiro no ano civil. Esquematização grosseira. Em suma, bissexto é todo poeta que só entra em estado de graça de raro em raro.” Apetece quase dizer que de poetas bissextos, então, todos nós temos um pouco. Questão é da arte de cada qual…

Do Site citador

 

Voltando ao tema, esclareço – antes de iniciar alguns posts com meus poemas, fiz um poeminha aqui mesmo a respeito das minhas indagações do meu eu poético. Dedico este poema a Joaquim Cardozo, poeta bissexto e calculista pernambucano.

Sendo poeta o engenheiro fez do seu frio trabalho técnico e calculista a concepção poética da obra de Oscar Niemeyer.

Ciente das minhas limitações, mesmo pequeno quero me inspirar nos grandes como Joaquim. Sou arquiteto, trabalho com arquitetura e é dela que provém o meu sustento e da minha família. Mas não me canso de pensar e dizer pra mim mesmo: sou um poeta… e acho que sou mesmo um poeta…

 

A juventude dos anos 70, ideais e lamentações

Maio 25, 2008 por celsoduarte

Flying Banana Bye Bye

Bye Bye meu mundo ocidental…?

No início dos anos 70, no pós 68, a juventude eclodia em busca da liberdade. Woodstock abria as portas da percepção. Filmes como Easy Rider acenavam-nos com novos caminhos. No Brasil a ditadura aprisionou idéias e ideais e o tropicalismo desabou.
Os mitos dos anos 60 foram partindo aos poucos.
Assim surgiu esta música…bye bye, também já esquecida, ou apagada pelo tempo.
Vale pela reflexão, 40 anos depois - qual é o nosso mundo e quais são os nossos novos valores?
Este vídeo é uma espécie de colagem de outros vídeos postados com sucesso no You Tube. O clipe gravado no Fantástico (Globo) nos anos 70 pela Banda Flying Banana traz imagens do autor da música Celso Duarte, num excelente vocal com Carlão de Souza e Passoca.
O grupo, apesar de elogiado pela crítica, foi desfeito logo depois do lançamento do primeiro LP.
Como autor deste blog, gosto de divulgar este trabalho que teve um caráter antropológico e cultural notável.

I Got a Woman in 1955

Maio 12, 2008 por celsoduarte

Nesse contexto, a mulher dos anos 50, além de bela e bem cuidada, devia ser boa dona-de-casa, esposa e mãe. Vários aparelhos eletrodomésticos foram criados para ajudá-la nessa tarefa difícil, como o aspirador de pó e a máquina de lavar roupas.
Em contraposição ao estilo norte-americano de obsolescência planejada, ao criarem produtos pouco duráveis, na Europa ressurgiu, especialmente na Alemanha, o estilo modernista da Bauhaus, com o objetivo de fabricar bens duráveis, com um design voltado a funcionalidade e ao futuro, refletindo a vida moderna. Vários equipamentos, como rádios, televisores e máquinas, foram criados seguindo a fórmula de linhas simples, durabilidade e equilíbrio.

Dois estilos de beleza feminina marcaram os anos 50, o das ingênuas chiques, encarnado por Grace Kelly e Audrey Hepburn, que se caracterizavam pela naturalidade e jovialidade e o estilo sensual e fatal, como o das atrizes Rita Hayworth e Ava Gardner, como também o das pin-ups americanas, loiras e com seios fartos.
Entretanto, os dois grandes símbolos de beleza da década de 50 foram Marilyn Monroe e Brigitte Bardot, que eram uma mistura dos dois estilos, a devastadora combinação de ingenuidade e sensualidade.

 
Oops! Deixei cair a minha calcinha…”, exclama uma linda garota, com uma perna para cima e os seios arrebitados. Sexy, sorridente e bobinha, tal é o estereótipo da pin-up. Uma garota de papel que os esportistas nos vestiários ou os soldados nos quartéis penduram por meio de alfinetes (to pin-up), há mais de um século. Que ela seja desenhada ou fotografada, numa revista ou num calendário, a pin-up não é uma mulher de verdade, e sim uma fantasia: ela é feita para ser devorada com os olhos, e não para casar.

O termo “pin-up” data dos anos 40, mas a bela é filha da revolução
industrial. “É no século 19 que são reunidas as condições para a emergência do gênero”, indica Maria Buszek, “quando surgem os meios de produção das imagens em massa, uma classe média urbana e uma sociedade mais aberta à representação da sexualidade feminina”. Aos poucos vão sendo difundidos, na Europa e nos Estados Unidos, os calendários sexy, os cartões-postais e os pôsteres de atrizes de teatro, por vezes desnudadas.